Enquanto você dormia parte 12


Na manhã seguinte, Danae desceu faminta. Quase não dormira, virando-se na cama por um longo tempo.
Chegando no pé da escada, ouviu o som de louça e prataria atrás de uma porta. Cautelosamente, abriu a porta e encontrou um am­biente prazeroso, não só pelo aspecto como também pelo aroma.
E, no meio do cômodo iluminado pelo brilho ofuscante do sol, Sion lia atentamente o jornal.
Quando um criado surgiu para fechar a porta atrás dela, Danae viu-se obrigada a se aproximar de Sion.
O marquês ergueu a cabeça e levantou-se para esperar que ela se sentasse. Seu sorriso era cortês, mas seu olhar frio. — Bom-dia, minha querida.
— Ciao, caro — Danae o cumprimentou, sentando-se. Quis perguntar como Sion dormira, se tivera pesadelos, mas não se atreveu na frente do criado.
Ao sentar-se, viu que havia um jornal também para ela, cortesia que nunca lhe fora feita. A jovem lia os jornais apenas depois que seu pai os punha de lado, e sem o conhecimento dele.
— Fiz uma assinatura desse jornal para você, Danae. E melhor do que ouvir fofocas. — Ele endireitou-se na cadeira e lhe per­guntou casualmente: — Quais são seus planos para hoje?
— Ainda não pensei, mas talvez... ver alguns lugares?
— Turismo? Posso sugerir uma primeira parada na modista? Conheço ótimas costureiras.
— Si, prego. Meu estilo deverá ser vulgar ou elegantemente contido?
— Você nunca seria vulgar, nem que tentasse. Danae ficou feliz com a observação.
Sion observou que o criado tentava, sem muito sucesso, fingir que não olhava para Danae. Em pouco tempo, Londres inteira saberia da sua nova hóspede. Ele esperava que ela conseguisse desempenhar seu novo papel.
— Sion, tenho algumas jóias como capital. Pode providenciar isso para mim, ou indicar aonde deverei ir?
— Bobagem. As modistas me conhecem, e mandarão a conta para mim.
— Não.
— Pague-me quando tudo se resolver. Além do mais, um dia você poderá dar as jóias para nossas filhas.
Danae abriu a boca para responder, mas nesse momento a porta se abriu e o criado entrou na sala com um novo serviço de chá. Sion levantou-se, aproximou-se dela e lhe ergueu o queixo.
— Creio que não me verá até a hora do jantar — murmurou. — Até mais tarde, meu amor — completou, beijando-lhe os lábios.
Consciente de que ainda era observada pelo criado, Danae vol­tou os olhos para o jornal, escondendo um sorriso.

O asilo St. James, no Soho, não mudara nada nos últimos ses­senta anos, apesar dos muitos atos que o Parlamento fizera para tentar legalizar suas condições. Os membros do Parlamento deba­tiam apaixonadamente as condições precárias do asilo, mas na realidade pouco se importavam com o que lá acontecia. Mesmo assim, havia muitos asilos em Londres.
Foi em um desses asilos, na rua Polônia, que o conde de Camden entrou pela terceira e última vez. Sem emoção, seguiu um bedel pelos corredores sujos, segurando um lenço contra o nariz.
— E bom vê-lo novamente — disse o bedel.
— Há quanto tempo ela morreu? — perguntou Camden.
— A mãe do menino? Acho que há um ano.
— Ótimo.
Chegaram a um quarto grande e escuro, com paredes sujas pin­tadas há muito tempo. O quarto era mal iluminado, e abrigava centenas de garotos emaciados e de olhar vazio.
O forte cheiro de corpos sujos e de urina tomava conta do lugar e ultrapassava o lenço de linho que Camden continuava a segurar contra o nariz e a boca. Com um olhar de repulsa às infelizes criaturas, ele seguiu o bedel.
Limpando a garganta, o homem gritou:
— Timmy Parker!
Um garoto magro e inexpressivo aproximou-se e olhou indife­rente para a alta figura do nobre a sua frente.
— Sim, senhor — o menino murmurou.
Camden suspirou irritado ao ver o aspecto do garoto. Levaria um bom par de semanas até que o menino pudesse ser apresentado.
Mesmo assim, seria muito útil. Era incrível a semelhança dele com Halsingham.
Camden esperou que o bedel se afastasse e se dirigiu ao garoto.
— Há quanto tempo está aqui, garoto?
— Sempre, senhor — o menino encolheu os ombros.
— Sabe quem eu sou?
— Não, senhor.
— Sou seu avô — Camden respondeu.
— Não tenho avô, e minha mãe morreu.
— Aquela mulher não era sua mãe. Raptou você quando ainda era um bebê — Camden mentiu, brutalmente. — Estou aqui para levá-lo embora.
— Minha mãe fez... o quê? — Confusão e medo passaram pelo rosto desfigurado do pobre garoto.
Ansioso para sair, o conde disse com impaciência:
— Ela não era sua mãe. Vamos, garoto. Vamos para casa e eu explicarei tudo.
Camden entregou dinheiro para o bedel, que nem perguntou para onde ele levava o garoto. Logo outro infeliz lhe ocuparia o lugar.
— Vamos, menino! — Camden repetiu.
Habituado a obedecer, Timmy seguiu o estranho para fora do único abrigo que conhecera. Não lhe importava saber para onde era levado: nenhum lugar poderia ser pior do que aquele.
Capítulo IV
Meu Deus, Sion! — exclamou Jonas, surpreso. — Alô, Jon. — Sion sorriu, hesitante. — Sou bem-vindo?
Jonas Glendower levantou-se da escrivaninha e foi até Sion, a mão estendida.
Aliviado, o marquês ria enquanto o amigo o cumprimentava com entusiasmo.
Jonas afastou-se um pouco, pôs os óculos e admirou o amigo, impecavelmente vestido; e, mesmo através das lentes, Sion pôde ver a expressão de afeto daqueles familiares olhos azuis.
Jonas tirou o chapéu das mãos do marquês.
— Venha, venha sentar-se. Quero saber tudo!
Sion sorriu novamente, diante da costumeira bagunça. Nunca entendera como aquele homem controlava vários negócios e in­contáveis arquivos no meio de tanta confusão.
Jonas empurrou o amigo até uma poltrona cheia de papéis, perto da lareira. Tirou a pilha de papéis e os colocou sobre uma cadeira próxima, derrubando, no processo, várias folhas, uma das quais voou até a lareira e foi consumida pelo fogo. Jonas então sentou-se na beirada de outra cadeira, na frente de Sion, sempre sorrindo.
— Então, como vai? Parece em esplêndida forma. Quando che­gou? O que tem feito?
— Estou bem, Jon. E agora que retomei a Londres, gostaria muito que voltasse a ser meu secretário.
— De volta a Londres! E com esta aparência. Da última vez que o vi, você... — Jonas parou, embaraçado. — Desculpe-me.
— Eu é que tenho de me desculpar, Jon, por meu comporta­mento vil e imperdoável.
— Nada disso! Eu é que errei querendo que você voltasse a cuidar dos seus negócios antes da hora. Foi uma época ruim para nós dois. Ninguém pode culpá-lo.
— Jonas, não bebo nada há meses. Eu pretendia vê-lo assim que chegasse à cidade; além disso, queria me desculpar e agradecer pelo apoio que me deu. Não estou sozinho, Jon. O que comparti­lharei com você deve ser mantido em completo segredo. Vou con­fiar a você uma vida preciosa.
Jonas ficou admirado. Danae era linda, e eleja vira muitas mu­lheres belas antes. Fora criada na obscuridade, como uma reclusa! Contudo, a jovem que se sentava a sua frente era uma condessa primorosa. Pequena e graciosa, os cabelos longos e sedosos até quase a cintura delgada. A pele era sedosa, e os olhos, cor de âmbar, sombreados por cílios longos e curvos.
Danae estava sentada ao lado de Sion, sorrindo educadamente para Jonas, que ouvia o amigo contar a breve história da amizade entre os dois.
— Você fez o quê? — Danae tornou-se subitamente séria e belicosa.
Sion fez uma careta, sabendo o que estava por vir.
— Precisará de ajuda, Danae, para reivindicar sua herança. Os documentos terão de ser autenticados, e Jonas é o único em quem podemos confiar.
— Percebe que é a minha vida que você quer confiar a... — Danae olhou diretamente para o homem que se apresentava com uma aparência péssima: nó da gravata torto, paletó manchado de tinta e calça amassada. — O que o senhor faz, Sr. Glendower?
— Sou advogado, entre outras coisas, senhora.
— O senhor é bom em seu trabalho?
—Tenho excelente desempenho em tudo a que me dedico. Mas não me importo com minha aparência.
— Pensei que você detestasse advogados — Danae disse, olhan­do para Sion.
— Jonas não é como os demais advogados. Garanto-lhe.
— Que tipo de advogado o senhor é?
Jonas olhou para Sion, mas este apenas lhe deu um sorriso tí­mido. Teria que enfrentar a fera sozinho.
— Sou inofensivo. E posso lhe assegurar que seu segredo está a salvo comigo. Dereham não apenas é o meu melhor amigo como também me salvou a vida, certa vez. A senhora é importante para ele, portanto é importante também para mim.
— Querida, temos de estar preparados para lutar, se Camden ou Halsingham, ou talvez ambos, contestarem o testamento. Jon tem condições de fazer isso.
— O senhor notou que irá se envolver em algo completamente ilegal? — Danae perguntou quando Sion terminou de falar. — Está disposto a quebrar sua ética?
Homem de moral inatacável, Jonas demorou um pouco para responder.
— Sei sobre sua história, milady, e sinto muito pelo que teve de passar. Contudo, se eu não sentisse que anos de injustiça foram perpetrados contra a senhora, eu não iria contra as leis, nem mesmo como um favor ao meu dileto amigo. Não digo que as leis sejam todas certas, mas sem dúvida norteiam nossas vidas e atitudes. Sion nunca mentiu para mim, e não acredito que o faça agora. Ele tampouco dá sua amizade facilmente. E acredita na senhora, o que é muito importante para mim. Também tive um pequeno contato com lorde Camden, e sei do que o homem é capaz. Estou a sua disposição, milady.
Sion, que observava os dois, suspirou aliviado quando eles sor­riram um para o outro.

— Meu Deus, você enlouqueceu? — Halsingham observava, horrorizado, Camden acariciar os cabelos loiros do garoto.
— Qual é o montante de sua dívida agora? — Camden per­guntou.
— Não me ameace! Os credores sabem da morte da minha esposa, e vão esperar até que eu receba a herança.
— Mas eles já sabem que sua dileta esposa não lhe deixou nada?
— Meu advogado assegurou que o caso não irá a juízo.
— Seu advogado é um imbecil como você. Sou tudo o que você tem, meu caro. E, se não quiser voltar para aquele buraco do inferno de onde o tirei, é melhor tomar cuidado comigo.
Halsingham controlou-se, pois sabia que o sogro tinha razão. Enojado, olhou para o garoto de cinco anos de idade, docilmente parado perto do conde.
— Esse esquema é irracional. Não vai funcionar! — afirmou Halsingham.
— Ah, nós faremos funcionar. Você me enganou uma vez, mas isso não se repetirá.
Desesperado, Halsingham se pôs a andar pela sala, maldizendo a hora em que se deixara comprar em Sidwell. Lá pelo menos podia lutar contra os ratos. Aquele homem devorava sua alma! Mas como fazê-lo parar?
— O que você quer? Este... — Ele apontava para o garoto. — Ele não é seu sangue. Por que fará dele seu herdeiro? Com que propósito?
Imperceptivelmente, Camden apertava o pescoço do garoto.
— Quero um neto. Você me enganou, Katherine me enganou. Então será do meu jeito. O sangue dos Camden não morrerá. Você dirá com convicção que esse menino é seu filho, ou simplesmente voltará para Sidwell.
Halsingham engoliu em seco e olhou para o garoto. Camden escolhera bem. O menino era lindo: cabelos loiros cacheados, olhos azuis, traços aristocráticos. Podia muito bem passar por seu filho.
— Está bem. Mas não quero o garoto na minha casa.
Depois que o genro saiu, batendo a porta, Camden sorriu ma­lignamente. Agradecia a Deus por Halsingham ser tão idiota. O menino não era seu sangue. Ainda.
— Está com sede? — Camden perguntou à criança. Com um tímido sorriso, o garoto assentiu com a cabeça.
— Bem, Edward vamos resolver esse seu problema. Camden foi até o armário de bebidas, pegou um copo e uma garrafa de água. Pegou também um punhal sarraceno, e fez um corte no seu dedo indicador. Fez o sangue pingar no copo, espre­meu limão e pôs açúcar.
— Aqui está, Edward. Beba tudo, e depois iremos procurar alguma coisa para você comer. Isso se chama limonada — Camden declarou, pondo as mãos dentro dos bolsos do paletó.
O garoto esvaziou o copo e o conde sorriu satisfeito, sempre com o olhar frio. Seu rosto estava pálido; a dor novamente atacava seu pescoço e têmporas. Era uma tortura sem fim, mas agora sabia lidar com os ataques. Seus braços estavam adormecidos, mas não podia fraquejar. Não tinha tempo para isso, pois havia muito a ser feito.
Logo aquela linda criança seria seu próprio sangue. O próximo conde de Camden.
Halsingham caminhava em Mayfair, pensativo, mal responden­do aos cumprimentos dos conhecidos.
Droga, nunca me livrarei de meu maldito sogro?
Quando conhecera Camden em Sidwell, ele parecia ter sido enviado por Deus. Aceitara a proposta do conde sem pensar duas vezes. Casaria até com a Medusa para sair daquele lugar infestado de ratos. Depois que tudo lhe foi explicado em detalhes, assinou o contrato. Na verdade, não pretendia descumprir o acordo, até ver Katherine, no dia do casamento. Não conseguiria deitar-se com aquela mulher. Felizmente, ela odiava o pai e os dois fizeram um acordo. Agora, com a esposa morta, Halsingham terminara atado a Camden.
Subitamente, viu uma pessoa conhecida olhando para a vitrina de uma loja de chapéus. Foi até ela.
— Boa-tarde, senhora Danae levou um susto.
— Oh, signore, assustou-me!
Halsingham fez uma elegante mesura.
— Desculpe-me. Lembra-se de mim? Reidlen Carey, Visconde Halsingham? É bom vê-la de novo. Está na cidade há muito tempo? — Ele lhe sorriu largamente.
— Si, signore, lembro-me do senhor. O marido da pobre Katherine. Não, estou em Londres há pouco tempo. Apreciando as paisagens.
— Sim, de fato — Halsingham olhou para a vitrina de chapéus. —- Londres tem paisagens fascinantes. Eu poderia acompanhá-la. A cidade é confusa para quem não a conhece.
E ele endereçou-lhe um sorriso magnífico e charmoso.
— Grazie mille, il mio signore, mas não. Vou me encontrar com lorde Dereham. O marquês me mostrará Londres.
— Perdoe-me, senhora, se fui inconveniente. Danae gesticulou, como uma boa latina.
— Não, não, signore. Eu ficarei encantada, se... Como direi... tiver sua companhia um outro dia?
— Sim, eu ficaria honrado. Poderei passar em sua casa? Danae pensou um pouco. Talvez pudesse tirar proveito daquela situação.
— Si, signore. Acho que pode. Estou na Mansão Dereham.
— A senhora mora com Dereham?
— Ma, certamente! Ele é meu, eu sou dele.
— Entendo. Bem, espero vê-la em breve! — Com uma nova reverência, o rapaz se afastou.
— Está tramando algo, moça? — perguntou a Sra. Turlow, atrás dela.
Danae sorriu, enquanto via os ombros largos de Halsingham desaparecerem em uma esquina.
— Apenas pondo um pouco de tempero no que já pegou fogo.
— E o que milorde dirá quando souber disso? — Espero que a senhora não lhe conte isso.
— E se ele perguntar?
— Não diga nada.
A governanta, que não gostou nada da resposta, virou-se e con­tinuou a caminhar pela Mayfair, com Danae no seu encalço.
Finalmente, Danae conseguiu alcançá-la e agarrou-lhe o braço.
— Sra. Turlow, como minha dama de companhia, a senhora deve me seguir, e não o contrário. Assim dará um espetáculo e eu não quero chamar atenção.
— É errado esconder fatos do milorde.
— Pedi que não contasse nada a milorde porque ele já tem muitas preocupações. Por favor?
A velha senhora não respondeu. Danae suspirou e acrescentou:
— Se entrarmos em acordo, poderemos terminar nossas com­pras. Percebi que gostou de um xale adorável na loja lá atrás.
— Está bem. Manterei minha boca fechada, mas não vejo isso com bons olhos.

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