Enquanto você dormia parte 8
Uma bela tarde, a sra. Turlow convidou
Danae para que a acompanhasse até o sótão.
A governanta, então, lhe abriu um grande baú onde havia
roupas maravilhosas. Juntas examinaram peça por peça: trajes de gala, trajes
informais, trajes para o dia e para a noite. Tudo muito fino e elegante:
rendas, cetim, veludo, tafetá,
laços e bordados.
A governanta separava as roupas e as
jogava sobre os largos ombros.
Subitamente, Danae parou e balançou a
cabeça, chamando a atenção da criada.
— O que foi? — perguntou a velha senhora.
— Tudo é muito bonito, maravilhoso,
mas... Eram roupas da marquesa. Não tenho o direito de me apossar delas. Sion
não aprovaria.
— Ele nem sabe que existem.
— Mesmo assim. Não tenho esse direito.
Seria desrespeitoso.
— Pegue ao menos um! — A governanta
guardou os trajes novamente e fechou o baú, resmungando. — Tome este emprestado.
— Sra. Turlow, onde estão os retratos?
— Devem estar aí, em algum canto.
Danae procurou e encontrou o retrato de
Tory. Ela estava sentada em uma cadeira, e Sion, atrás da esposa, apoiava uma
das mãos em seu ombro. Os dois sorriam.
Tory não era propriamente uma mulher
bela, mas seu olhar irradiava simpatia, e ela era como que circundada por uma
aura de amor. Seria muito fácil confiar naquela mulher.
— Deviam se amar muito — Danae afirmou,
com uma ponta de inveja.
— Sim, tratava-se de uma mulher muito
boa.
Prometo cuidar de Sion para você, Danae
pensou, olhando para o rosto sorridente de Tory. E você encontrará paz.
Subitamente, ela tomou uma decisão.
— Coloque esse retrato de volta no lugar
que ele ocupava.
— Querida, acho que não é uma boa idéia.
— Pode fazê-lo, eu assumo a
responsabilidade.
— Não é comigo que eu me preocupo.
— Então, tudo bem. Não se preocupe mais.
Sion se barbeava quando ouviu um barulho estranho vindo do andar
inferior.
Tirou a espuma de sabão do rosto, abotoou a camisa e desceu para averiguar do que
se tratava. Quando entrou na biblioteca, viu o retrato de Tory pendurado sobre a lareira. Surpreso,
ruborizado, os olhos congestionados, perguntou à governanta:
— O que significa isso? Quem autorizou?
A sra. Turlow nada disse, mas ele sabia a
resposta.
— Onde está Danae?
A velha senhora olhou em direção ao
jardim.
— Obrigado — Sion agradeceu, sarcástico.
— E tire o retrato daquela parede. Agora!
No jardim, Sion, furioso, procurava por
Danae.
Como ela ousara trazer à tona seu
passado? Amara muito Tory, mas sua esposa se fora e ele não queria mais mergulhar
na decadência que vivera depois que a perdeu. Tinha uma nova vida agora.
Logo avistou-a conversando animadamente
com o novo jardineiro. Não
podia acreditar.
Lá estava a bela senhorita, os lindos cabelos ondulados, o sol pondo
reflexos dourados nas mechas ruivas. Seu
rosto parecia alegre, e seu belo corpo moldava-se de modo perfeito por um dos
vestidos... de Tory!
Sion fechou os olhos. Lembrava-se daquele
vestido: fora entregue depois da morte da esposa.
— Milorde — Danae murmurou, fitando-o com
os olhos cor de âmbar, brilhantes.
— Você enlouqueceu? — ele perguntou,
irado.
— Eu fiz alguma coisa?
— E ainda tem coragem de perguntar? Foi
uma péssima idéia pendurar o retrato de Tory na minha biblioteca, mas isso... —
Ele apontou para o vestido que ela usava. — Que audácia usar as roupas dela!
Quem autorizou?
Com esforço, Danae reprimiu sua própria
raiva, culpa e mágoa. Estava claro demais que vê-la usando um dos preciosos
vestidos de Tory era
insuportável ao marquês.
Sentiu que mal conseguia respirar, e a velha
insegurança retornou.
— Perdoe-me! Achei que poderia tomar ao
menos esse empréstimo. Mas corrigirei meu erro o quanto antes: tirarei o traje
imediatamente. É óbvio que julguei nossa amizade de maneira equivocada.
Danae tentou se retirar, mas ele bloqueou-lhe
a passagem.
— Não seja ridícula. É claro que somos
amigos!
Sion parou e contou até dez para se
acalmar. E tentou falar em um tom de voz mais ameno:
—
Não há necessidade de usar os vestidos de Tory. Se tivesse pedido, saberia que
eu já chamei uma costureira para vir aqui tirar suas medidas.
Danae ficou lívida. Quanta generosidade! Há meses usava as
roupas grandes da Sra. Turlow, e Sion agora havia chamado a costureira sem nem
avisá-la. Era um homem arrogante! Nunca mais iria querer a misericórdia de um
homem para vesti-la, alimentá-la ou lhe dar ordens.
— Perdoe-me. Nunca mais usarei as
preciosidades de sua mulher. Não quis execrar a memória de Tory! — Danae
disse, arrancando os botões de pérola do vestido e os atirando aos pés dele.
Suas roupas íntimas de cambraia ficaram
expostas, e Sion fraquejou ao ver uma parte dos alvos seios expostos.
Lembrou-se de quando a banhava, e sentiu grande desejo de tocá-la.
Vendo-o impassível, Danae não se conteve:
livrou-se do vestido e o atirou no rosto do marquês.
— Aí está! —ela gritou. — Com meus
cumprimentos! Ponha-o em um santuário!
Com o rosto coberto pelo vestido, Sion
ouviu os passos da jovem se afastando pelo caminho de pedras. Ela vestia
apenas as roupas de baixo e o espartilho, e seu corpo maravilhoso o deixou
enlouquecido.
Correu e conseguiu agarrá-la, mas Danae
virou-se e lhe aplicou uma bofetada.
— Então é isso? Quer brigar?
Percebendo seu erro tarde demais, Danae
não conseguiu impedir que ele a pegasse e a pusesse sobre o ombro. Gritou, mas
Sion caminhou
em direção ao quarto dela, impassível, ignorando a governanta, que a tudo
assistia boquiaberta. Quando chegou ao quarto, jogou-a na cama sem muita
delicadeza.
— Já fez o que desejava, milorde. Agora,
por favor, saia daqui!
— Danae, Danae, o que farei com você?
Ainda não aprendeu nada? Bem, acho que essa é uma boa oportunidade para
ensinar-lhe como se reconciliar com um amante.
Assustada com as palavras, ela
levantou-se da cama para tentar fugir, porém Sion a agarrou, colando seu corpo
ao dela.
Ofegante, Danae sabia que
tinha de se afastar dele a qualquer custo, mas ficou paralisada por sensações
até então desconhecidas.
— Por favor... — ela sussurrou.
— Pretende pedir-me algo, Danae?
— Não sei. Não consigo pensar direito.
Seus lábios estavam muito próximos, e a
atração entre os dois era imensa.
— Posso deduzir que é isso que você quer?
— o marquês perguntou, um segundo
antes de beijá-la com paixão.
Sion sentia os mamilos de Danae túrgidos pelo desejo, e não resistiu a tocá-los.
Empurrou-a de volta à cama. Deitado sobre ela, afastou-lhe as pernas com os
joelhos. Danae gemia, o que o deixou ainda mais enlouquecido.
— Não! — ela conseguiu murmurar, ao
sentir que os dedos ágeis do marquês exploravam seu corpo, tocando-a em sua
parte mais íntima. Sion agora exigia sua entrega total, e Danae, consumida
pela paixão, viu sua resistência diminuir cada vez mais.
Entretanto, no auge do desejo, ela ouviu
a voz de Jassy recriminando-a.
Pretendia tornar-se uma daquelas mulheres decaídas sobre as quais Jassy sempre
a alertara?
No entanto Sion continuava a acariciá-la
e seu toque a enlouquecia de prazer. Sem poder mais se conter, Danae foi
dominada de tremores,
e experimentou uma sensação que nunca imaginara. Mesmo
gritando de prazer, empurrou Sion até conseguir se livrar, saindo de debaixo
dele, e ficou de pé ao lado da cama. O corpo do marquês tremia, e seu peito arfava.
Vendo a confusão estampada no olhar de
Sion, sentiu-se uma mulher imoral. Deixara que a tocasse em lugares proibidos.
Chorando, humilhada, Danae escondeu o rosto com as mãos.
Ainda tentando entender o que acontecera,
Sion permanecia ajoelhado no meio da cama, fitando-a, insatisfeito e já
constrangido. Precisava se livrar da agonia de um celibato de quatro anos. Mas não queria outra
mulher: queria Danae.
— Desculpe-me, querida. Eu não pretendia
ir tão longe.
— Por favor, vá embora! — ela sussurrou,
desejando, porém, que Sion ficasse.
Com um suspiro, ele a fitou, sentindo um
grande desejo de confortá-la, de tentar recuperar sua confiança. Mas achou que
aquele momento era inadequado e caminhou em direção à porta do quarto,
destrancando-a.
Danae teve vontade de chamá-lo de volta,
mas não conseguiu.
Naquela noite, na sala de jantar, Danae
mal olhou para lorde Dereham, enquanto
os criados serviam a refeição.
Pelo menos, Sion teve a satisfação de
vê-la se alimentar de modo adequado.
— Minha querida, sei que não quer
conversar comigo, mas... quantas vezes terei que pedir desculpas? O que deseja
dessa vez? Sangue? — ele disse, depois que os criados saíram da sala.
— Até que é uma idéia interessante!
Com impaciência, Sion enrolou as mangas
da camisa e estendeu os braços sobre a mesa.
— Pode picar qualquer veia.
— Quem falou em picar?
Inesperadamente, ela fincou os dentes
alvos no pulso de Sion, que, assustado, pôs-se de pé, enquanto ela fingia
limpar o canto da boca com o guardanapo.
— Delicioso! — murmurou em tom de graça.
Sion viu-se tentado a morder o pescoço de
Danae, mas
logo se conteve.
— Desculpe-me, querida. Deus, preciso
exercitar meu autocontrole! Saiba
que eu jamais a machucaria. Não quis desrespeitá-la. Prometo que nunca mais
acontecerá.
— Não precisa se desculpar.
— Como assim? — o marquês perguntou,
irritado.
— Não tem importância.
— É claro que tem! Tudo em relação a você
importa para mim — ele afirmou, segurando-a pelos ombros. — Diga-me o que fiz
para merecer a sua frieza.
— Por favor, milorde, deixe-me ir.
— Não enquanto não me responder.
Danae permaneceu imóvel e Sion a largou,
afastando-se.
— Está me associando a Camden, é isso?
Ela não respondeu, apenas encolheu os
ombros.
Desanimado, ele voltou ao seu lugar à
mesa, sem saber o que mais poderia fazer ou dizer.
Lutando contra o impulso de se aproximar
do marquês, Danae engoliu em seco e se conteve.
— Já devolvi o vestido da marquesa ao
lugar de onde o tirei. Boa-noite, milorde.
Quando estava próxima da porta ouviu-o
dizer:
— Recebi um bilhete da costureira. A
mulher deve estar de volta à cidade amanhã, e poderá atendê-la na quinta-feira.
Danae esperou que Sion dissesse mais
alguma coisa, mas isso não aconteceu. Então, meneou a cabeça e saiu da sala de jantar.
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