Enquanto você dormia parte 7
Muito tempo atrás, Camden deixara bem claro
que Katherine nunca teria liberdade. E ela, covardemente, aceitara aquela imposição
sem se rebelar. De repente, seu mundo foi virado de cabeça para baixo; e ali
estava ela, livre, depois de um sono de reabilitação. E seus sonhos haviam se
transformado em realidade.
Não sabia quanto tempo ficara ali, de
joelhos e com a cabeça abaixada. Ao se levantar, sentia-se febril, mas também
purificada de toda a raiva e frustração. Katherine havia sido uma alma perdida.
Talvez agora encontrasse a paz.
— Eu a amo, Jassy; e amo você também,
Katherine. Obrigada, e que Deus as proteja. Por favor, não se esqueçam de mim.
Agora sua vida não tinha mais fronteiras,
e ela podia fazer tudo ou nada. Dependia apenas de sua vontade.
Afastou-se da sepultura e caminhou em
direção ao futuro.
Antes de chegar ao solar, sabia quem era
e o que desejava da nova vida que recebera. E foi procurar Sion.
O marquês certamente saberia entender sua
necessidade de libertar-se dos fantasmas do passado.
Nunca esqueceria aquele dia. Era o dia do
seu nascimento: 30 de setembro de 1882.
— Você quer o quê? — Sion perguntou a
Katherine, que entrara na biblioteca sem se anunciar.
— Gostaria de ter um túmulo com a
seguinte inscrição: "Katherine
Beatrice Camden-Carey, viscondessa
Halsingham, 1860-1882".
— Por que deseja pôr essa inscrição no
túmulo de Jassy? Pelo
olhar de Katherine, Sion percebeu
que chegara a hora de suas confissões.
— Há uma hora atrás eu não tinha a menor
idéia do caminho que tomaria — ela disse, sentando-se na frente da escrivaninha
de Dereham. —
Na verdade, Jassy me instruiu.
— Jassy? — Sion recostou-se na cadeira. —
Pode explicar?
— Preciso?
— Oh,
sim, precisa.
— Lembra-se de como era Katherine na
primeira vez que a viu?
— Na realidade, não — Sion respondeu,
depois de breve hesitação. — Eu não estava em condições de me lembrar de nada.
— Vamos, não precisa ser diplomático.
— Bem, não me lembro muito bem, mas...
— Eu era gorda.
— Não ponha palavras em minha boca. Mas
se insiste...
— E como sou agora?
— Uma mulher bonita e...
— Não quero que me elogie, mas aquela
mulher que você resgatou não existe mais. Você me reconheceria?
— Não, mas eu não a conhecia antes.
— Acredite-me. você não prestaria nenhuma
atenção em Katherine.
— Não, mas as pessoas que a conheceram
antes certamente não teriam esse problema.
— Não concordo com você. Toda vez que me
olho no espelho, não vejo nenhum sinal de Katherine.
— Você não conseguirá se livrar, minha
cara.
— Livrar-me do quê?
— Você sabe. Pare de me tratar como se eu
fosse um tolo. Deve haver alguém na sua vida que saberá que isso é um blefe.
— Acredite-me, ninguém seria capaz de
reconhecer Katherine Camden-Carey na mulher que você está vendo agora.
— Por que essa fraude?
— Liberdade, Dereham. Liberdade.
— Você é casada?
— Sim, Katherine foi casada durante três
anos.
— E acha que seu marido não a
reconheceria?
— Tenho absoluta certeza que não.
— E surpreendente. Difícil de acreditar. —- Confie em mim.
— E quanto a seus pais?
— Katherine tinha apenas três anos quando
a mãe morreu. E o pai nunca se importou com ela.
— Nomes, por favor.
— O pai de Katherine é o conde de Camden,
Arthur Phillip Marlowe;
e seu marido, o visconde Halsingham, Reidlen
Carey.
— Camden — Sion murmurou. Então ela era
filha de Camden, um vizinho que sua família sempre evitara. — E o que pretende?
— Era grande a curiosidade de Sion.
— Informá-los de que Katherine morreu.
— E quem é essa pessoa sentada a minha
frente?
A jovem se levantou, e fez uma mesura graciosa, como se estivesse se
apresentando.
— Danae Suriano, a contessa di Sala — declarou, com perfeito sotaque
italiano.
— Danae é um nome incomum.
— Trata-se de uma heroína da mitologia
grega, Sion. Seu pai, em um surto de raiva, trancou-a em um caixão e a jogou no
mar. Para morrer.
— E ela morreu?
— Não. Flutuou durante dias até ir dar em
uma praia, onde foi resgatada por um rei.
Os dois se olharam por alguns segundos,
um estudando o outro.
— E quem será Danae Suriano?
— Sua amante.
—
Quê? A minha... am... amante?
— Não de verdade, é claro. Você me
apresentará como a viúva de um nobre italiano. Quem iria saber que você nunca
esteve na Itália? Está afastado da sociedade há anos.
— Mas por que tudo isso? — Sion indagou, perscrutando a expressão dela.
— Pela primeira vez na minha vida tenho a
chance de viver, de conhecer pessoas... Quero ter motivos para rir! Acho que
nem sei rir. Não é engraçado?
— Se continuar com esse plano, Katherine, violará a lei. Se for descoberta, será
castigada severamente. Até Camden será melhor do que uma prisão.
— Nunca, ouviu? Nunca! — Katherine
levantou-se de modo abrupto. — Nada poderá ser pior do que aquele inferno!
Tenho vinte e dois anos. Até o dia do meu casamento, nunca pus os pés fora do
castelo. No dia do meu casamento, meu marido, um homem que eu nunca havia
visto, me disse que não suportava nem mesmo olhar para mim. Dormiu no chão e
foi embora na manhã seguinte. Mas Camden mandou buscá-lo. Ele dormiu de novo no
chão, dessa vez no quarto de vestir. Como ambos tínhamos interesses, chegamos
a um acordo. Ele não tocaria em mim, e eu não contaria a Camden que ele era
incapaz de engravidar-me. Mas no mês seguinte, quando fiquei... Bem, quando
Camden percebeu que eu não havia engravidado, bateu em mim. E todo mês, depois
de saber que mais uma vez eu não tinha engravidado, meu pai me batia. —
Lágrimas insistiam em cair por seus olhos. Depois de alguns momentos,
continuou: — Tanta humilhação não seria nada em comparação ao que Camden faria
a Katherine se descobrisse que ela ainda era virgem.
Sion nada disse. Apenas olhou para
Katherine, que pela primeira vez na vida encarou um homem.
— E então, Sion?
— Eu a ajudarei... Danae.
— Bem, será apenas uma farsa até que eu
me estabeleça, entende?
—Devo informar-lhe de que sou péssimo em
farsas. Certamente terei que conhecê-la melhor para me fazer passar por seu...
amante.
— Está me provocando — ela disse,
sorrindo.
— De modo nenhum. Asseguro-lhe que
precisará de alguma prática. Sou conhecido pelo meu bom discernimento em
relação a amantes, e prometo-lhe que serei paciente. Praticaremos até que você
se sinta confortável em seu papel. Papel que você escolheu. Serei apenas seu
humilde tutor.
Capítulo II
Castelo Camden, dezembro de 1882
Depois de tomar
um gole de conhaque, Camden leu novamente, com mais vagar, a carta que
recebera. Então, Katherine estava morta. E com ela, a continuação de sua
linhagem.
Olhou para a assinatura da carta. Fazia anos que não
ouvia falar em Sion Sinclair.
Desgraçada! Desde o dia do seu nascimento, Katherine
fora um espinho em sua vida. Parecia até que a infeliz havia planejado sua morte
para se vingar dele.
O que faria agora?
Uma esposa morta e nenhum herdeiro. Sempre tomara
cuidado de não ter um filho fora do casamento que pudesse reclamar sua herança.
Pensativo, olhou fixamente para o fogo na lareira.
Tinha que fazer alguma coisa. Precisava encontrar Dereham e averiguar que papel
o marquês tinha naquilo tudo. De repente, pensou em Halsingham. Sem dúvida ele
viria reclamar sua herança. Era o viúvo de Katherine, tinha direitos.
Quando pusesse as mãos no inútil, faria com que se
arrependesse de estar vivo. Pagara uma fortuna para que ele engravidasse
Katherine, e o idiota nada fizera.
Naquele momento, teve vontade de castrar o
desgraçado.
Camden serviu-se de mais conhaque, e depois de um gole
jogou o copo na lareira acesa. Houve uma pequena explosão e ele sorriu, selando
seu brinde com fogo.
— Seu
pai estará aqui no final do mês. Com seu marido, devo acrescentar — Sion anunciou, ao entrar na sala para o desjejum.
— Ele
não é meu marido, lembra-se? E
eu não tenho pai — Danae
respondeu.
Sion sentou-se à mesa. Os dois ficaram em silêncio,
enquanto um criado servia café ao marquês.
— Não
está nem um pouco curiosa? — Sion
perguntou depois que o criado se retirou.
Danae olhava para seu prato de frutas e para o belo
pedaço de carne no prato de Sion.
Com um suspiro, pegou o garfo novamente.
— Danae?
— Não.
Não me importo com o que os dois têm a dizer.
— Eu
avisei que você não conseguiria escapar.
— Não
foi isso que disse na semana passada. -
— Por
favor, pode me passar a geléia? — Sion
pediu. Danae morria de vontade de comer o mesmo desjejum que Sion.
Tinha vontade de enfiar-lhe uma fruta na boca e tomar seu prato.
— Não
sente fome, querida?
Danae levantou-se e jogou o guardanapo na mesa,
dirigindo-se para a porta.
Sion tentou entender a atitude dela. Talvez estivesse
mais preocupada com a visita do pai e do marido do que queria admitir. Por
outro lado, vinha observando nos últimos meses que a aversão de Danae pela
comida se agravara. A jovem comia cada vez menos. Algumas vezes nem descia para
fazer suas refeições e, quando o fazia, era como ver um passarinho comendo, e
ele até ficava um pouco constrangido quando faziam as refeições juntos.
Ela emagrecera demais, talvez para se assegurar de
que Katherine estava morta e enterrada. Se não tomasse alguma providência, logo
ela perderia o viço, como quando ficara inconsciente.
Mas não ia deixar de comer por causa
dela. Depois que parou de beber, viu seu apetite aumentar, e pretendia
continuar assim.
— Katberine!
— chamou a governanta.
— Sra. Turlow, quantas vezes terei que
repetir? Agora meu nome é Danae. A senhora pode arruinar tudo. — Depois de uma
pausa, percebeu que havia gritado. — Oh,
desculpe-me, sra. Turlow. Não é sua culpa... Estou muito
irritada. É Sion! Ele
às vezes é irritante demais. Sempre com aquele olhar de superioridade.
Na verdade, Danae tinha uma enorme
vontade de perguntar por que o marquês comia tanto!
Sentindo dor de estômago por causa da
fome, ela olhou para a governanta, esperando a resposta.
— Sim, Sion sempre foi irritante, mas não
tão teimoso como a senhora.
Sabendo aonde aquela conversa ia dar,
Danae olhou para a porta da sala de jantar, onde Sion deveria ainda estar se empanturrando. Não era justo. O marquês comia tanto e se
mantinha sempre maravilhoso... E ela não podia comer nada!
Danae olhou para a governanta e
perguntou:
— Não sente cheiro de pãozinho de passas?
— Sim. Venha comigo e me ajude a tirar os
pães do forno. Venha comer um pouco, com manteiga.
— E geléia? — Danae perguntou. Depois de alguns
segundos, voltou a si. — Oh, sra.
Turlow, como pode?
A governanta teve vontade de pegar Danae
pela orelha, fazê-la sentar-se à mesa da cozinha e obrigá-la a comer.
Neste exato momento, Sion saiu da sala de
jantar, sorrindo e alisando a
barriga. Olhou para as duas mulheres.
— O que houve? — perguntou.
Danae subiu a escada correndo, sem nada
responder.
— O que há com ela, sra. Turlow?
A mulher virou-se e foi para a cozinha.
Duas portas bateram com força.
Danae o tratava como idiota. E aquela
mania de passar fome o exasperava.
Foi para a biblioteca, e também bateu a
porta.
Afinal, por que aquela garota o tirava do
sério com tanta facilidade? Por que tinha de se importar se ela comia ou não?
Não entraria no jogo dela. Que ficasse mais um dia sem comer, até desfalecer de fraqueza. Talvez assim voltasse a ter
bom senso.
Sion olhou para a elegante mesa. O sol da
manhã punha brilho nos talheres de prata, e uma leve brisa balançava a toalha
de renda da mesa.
Danae estava parada no arco das portas
que davam para o terraço.
— Bom-dia, minha querida. Senti sua falta
no jantar de ontem.
— Eu não me senti bem, e decidi ficar na
cama.
— Imaginei que não tivesse condições de
vir, por isso exigi sua presença esta manhã. — Sion lhe deu o braço e a levou
até a mesa. — Dessa vez não funcionará, minha querida. — Ele puxou a cadeira
para que Danae se sentasse.
— O que não funcionará?
— Ignorar-me. Estou de ótimo humor hoje,
e não permitirei que me provoque. Olhe ao seu redor, Danae. O céu brilha, os
passarinhos cantam alegres, você tem minha agradável companhia e a comida
ainda não esfriou. — Ele se curvou, pegou um botão de rosa do arranjo de flores
que decorava a mesa, e acariciou o rosto de Danae com as pétalas. — O que mais
poderia pedir?
Danae pegou o botão e o levou ao nariz
para sentir seu aroma.
— Eu realmente o provoco?
— Ficará contente se eu disser que sim?
Alegraria você se eu dissesse que encontrei cabelos brancos em minha cabeça
esta manhã? Ficarei velho antes do tempo, e por sua culpa, Danae. Você me
confunde.
Ela sorriu timidamente.
— Sim — continuou Sion. — Você me provoca
não me respeita, porém não posso mandá-la embora. Creio que estamos presos um
ao outro. Para o melhor ou para o pior — disse, beijando-lhe a mão.
Danae sorriu e encostou o botão de rosa
no rosto dele, antes de sentar-se.
— Não estou acostumada a provocar
controvérsia. Contudo, acho estimulante poder me expressar com... — ela parou
para procurar a palavra certa.
— Liberdade — o marquês completou gentil.
— Exatamente! Sempre tive que controlar
meus sentimentos, e agora... É como voar! — Danae sorriu mais uma vez.
— Então, querida, sinta-se livre para
expressar seus sentimentos e pensamentos. Só não deve me chutar, nem atirar
coisas em mim. Em troca, pode falar o que quiser sem misericórdia. Negócio fechado?
— Sion pegou
a mão dela.
— Essas condições não são problema para
mim. Não pretendo ser uma ameaça para você, mas... Não quero ser obrigada a
nada. Por exemplo, não quero ser obrigada a comer se não tiver fome.
— Sinto muito, Danae, mas não posso
simplesmente me sentar a sua frente e vê-la matar-se de fome devagar.
— Não tenho intenção de me matar!
Recostando-se na cadeira, Sion cruzou os
braços sobre o peito e a estudou por um longo momento.
— Durante seu restabelecimento, houve
ocasiões em que achei que você era a mulher mais linda que eu já havia visto.
Contudo, já não posso mais dizer isso.
— Pelo menos eu não estou...
— Gorda?
— Deus, como você pode ser cruel!
— Não confunda crueldade com honestidade. Ir de um
extremo ao outro não é resposta para os seus problemas. No final, arruinará sua
saúde. Já destruiu sua beleza, a mesma beleza com que sonhou a vida toda. Meu
Deus, mulher, olhe-se! Está patética, horrivelmente pálida, e seus ossos
aparecem sob sua pele. Parece frágil demais. Tenho a impressão que sua pele se
abrirá a qualquer momento. Lembra aquelas criaturas presas em uma cadeia
durante anos. - Sion não pôde ver a expressão dos olhos de Danae, que ela
manteve baixos, mas notou que seus lábios tremeram um pouco.
— O que devo fazer Sion? — Ela finalmente
olhou para o marquês, como se fosse uma garotinha que perdera seu animal de estimação.
— Eu a apoiarei em tudo, Danae, mas nisso
não.
— Mas eu engordei e...
— Não — ele a interrompeu. — Não
engordou. Você ficava mais adorável a cada dia! Sua saúde restabelecida e sua
força recuperada. Esteve inconsciente por mais de quatro meses, seu corpo
sofreu meses de trauma. Às vezes queimava de febre, e quase morreu de
desidratação! Estava desfigurada quando despertou. Quase como se encontra
agora, devo acrescentar.
Sion queria ferir a vaidade dela e,
aproveitando a chance novamente, falou com mais suavidade:
— Você é uma mulher desejável, Danae. Eu
pensava em você todas as noites. Começou a adquirir orgulho e confiança. Era
Danae, mas agora vejo Katherine voltar,
deixando seus medos a dominarem. Quem é você? A desejável e sedutora condessa ou a mulher solitária, que nunca
conseguiu realizar um só desejo?
— Mas e se eu não parar de engordar?
— Deixe a natureza cuidar disso, Danae.
Nunca a vi comer demais em uma refeição. Sempre foi cautelosa. Katherine não tinha
nada e compensava sua frustração comendo de modo exagerado. Ela não tinha
alguém como eu para desafogar sua raiva e frustrações. Vê como você tem sorte?
— Sion lhe sorriu.
— Sim, é verdade, tenho tido muita sorte
desde que cheguei aqui. Você e a sra. Turlow são uma bênção para mim. — Danae
olhou para o jardim, suspirou e voltou a fitá-lo. — Está bem, Sion. Como tenho
permissão para abusar de você... verbalmente, claro, é justo que eu lhe dê
alguma compensação. Mas, como você disse, o corpo deve se manter íntegro.
— Façamos um trato. Encomendei alguns
cavalos de uma fazenda próxima daqui. Eles deverão chegar ao final da próxima
semana. Uma pequena égua será sua; um presente meu, porém, com duas condições:
primeiro, você terá que recuperar suas forças, e isso significa sentar-se à
mesa nas refeições e se alimentar. Segundo, deverá provar que pode se manter
sentada em um cavalo antes de ele ser seu.
— Mas eu não aprendi a montar...
— Sei disso. Eis o que proponho: para cada
aula que eu lhe der, eu ganharei... um beijo. Mas o beijo será à minha maneira.
Negócio fechado?
Danae considerou bastante boa a idéia de
ter seu próprio cavalo e poder cavalgar em liberdade pelos campos. Um beijo
para cada aula. Do jeito que ele quisesse. Correria perigo, mas valeria a pena.
— Aceito, com uma condição: durante o
beijo deveremos permanecer de pé.
— Está bem.
De repente, tudo parecia belo; seu
futuro, a linda manhã, e a comida que Sion
colocava em seu prato.
Por sua vez, Sion achou uma semana tempo
demais. Talvez fosse bom mandar um bilhete a Rotherham para entregar os cavalos antes. Seria
pena fazer Danae esperar.
Danae olhou outra mecha dos cabelos cair no seu colo. Pegou-a e
observou a nova cor que a sra. Turlow conseguira com uma mistura de hena e
outras ervas: uma tonalidade próxima do ruivo.
Com essa mudança, não teve mais dúvidas de que se pareceria
de fato com uma condessa italiana.
Mais uma razão para abençoar aquela
senhora e suas incontáveis habilidades.
— Oh,
esses cabelos vão ficar muito bonitos, querida! — afirmou a
governanta.
Danae esperava com grande ansiedade o
resultado.
— Pronto... — murmurou a sra. Turlow. —
Agora, vamos aos ferros.
Na lareira, cinco bastões finos de ferro
estavam aquecidos. Contudo, Danae assustou-se, e quase desistiu.
— Eu confio plenamente na senhora, mas
não acha que... Parou de falar quando sentiu o ferro encostar em uma mecha de seus cabelos, com o som característico
de algo que ferve.
— Oh,
por favor, sra. Turlow, eu realmente...
Outra mecha "fervendo" interrompeu-a mais
uma vez.
Quando a governanta foi até a lareira
para pegar outro ferro aquecido, Danae teve vontade de fugir.
Depois de terminar o trabalho, a sra.
Turlow afastou-se um pouco, a fim de avaliar o que fizera.
— Ah... trata-se de uma obra-prima! — a
mulher exclamou, sorrindo. — Está adorável.
Danae não acreditou na imagem que via
diante do espelho. Seus belos cabelos estavam cacheados, brilhantes e com uma linda cor ruiva. Teve até receio de tocar neles. Seus
olhos e sua pele foram realçados, e sem os óculos de sua mãe, Danae se
transformara em uma mulher muito mais bonita.
Era agora uma verdadeira lady, igual às mulheres aristocráticas que
tanto admirava. Pela primeira vez em sua vida, Danae se olhou no espelho e
gostou do que viu.
Camden, você acabou com Katherine, mas não tocará em mim, ela pensou,
admirando sua nova imagem.
— A senhora é realmente uma mestra, sra.
Turlow. Deveria trabalhar nos salões mais elegantes de Londres, em vez de
perder seu tempo aqui. Muito obrigada!
— Ora, querida. Para que ir a Londres se
tenho aqui um anjo para cuidar?
Sim, Danae podia muito bem se fazer
passar por uma viúva italiana que não pensara duas vezes antes de se tornar
amante de um lorde inglês. Pensar em Sion como seu amante a fez corar.
— Bem, ainda não acabamos — a governanta
avisou. — Feche os olhos, querida.
A jovem obedeceu e, depois de alguns
minutos, a sra. Turlow deixou que ela se olhasse novamente no espelho. A
transformação foi grande.
— Agora, os lábios. Entreabra os lábios.
— Entreabrir
os lábios? Como, sra. Turlow?
— Será que terei de ensinar isso também?
Até as coisas mais básicas? — perguntou Sion, encostado no umbral da porta.
O marquês se aproximou e ergueu o queixo
de Danae, beijando de leve seus lábios.
Danae ficou estarrecida. Aquele simples
beijo lhe despertara sensações que nunca havia experimentado.
— Viu, querida? É assim que entreabrimos os lábios. Você é uma boa aluna... — E o
marquês a beijou mais uma vez, um pouco mais demoradamente.
— Obrigada, milorde — ela disse com
frieza. — O senhor tem talento para ensinar.
— Serei sempre seu humilde servo, minha
querida. E sempre satisfarei seus caprichos. Fez um ótimo trabalho, sra.
Turlow. — Sion acrescentou,
sorrindo, sem tirar os olhos de Danae.
O reflexo da governanta no espelho fez
Sion voltar à realidade. Ele limpou a garganta e se afastou.
— Danae, eu agradeceria se passasse
alguns minutos na biblioteca. Para sua conveniência, é claro.
A jovem apenas meneou a cabeça afirmativamente. O que mais
queria no momento era que o marquês saísse do quarto. Ao chegar à porta, Sion
parou.
— Os lábios dela são perfeitos, sra.
Turlow. — comentou ele. — Acho que não será necessário pintá-los.
— Milorde? — Danae o chamou.
— Sim, minha querida?
— Você me deu uma informação, não uma
aula; mesmo assim, teve sua compensação. Deixe-me dizer o que penso dessa sua
atitude. — E atirou uma latinha de
talco em Sion.
A lata bateu na parede, e seu conteúdo
caiu sobre Sion, que ficou coberto de talco.
Depois de alguns segundos, Danae e a
governanta explodiram em risos.
Sion olhou-se de alto a baixo. Seu estado
era lastimável. Subitamente, porém, deu-se conta de uma coisa muito
importante: Danae estava rindo! E seus olhos exibiam um brilho especial...
Depois de alguns minutos, já séria, Danae
tornou a fitá-lo.
— Alguma coisa está errada? Sei que não
devia ter atirado a lata de talco, mas era o que estava mais próximo.
Desculpe-me.
— Não se desculpe, Danae, foi nosso
trato. Você atirou apenas um objeto, e eu lhe dei dois beijos.
Danae olhou para a cesta, pegou a escova
de cabelo e a atirou contra ele, que a pegou no ar.
— Estamos quites, agora? Dois beijos,
dois objetos. Ela se curvou em uma elegante mesura.
Sion se retirou, deixando suas pegadas no
talco espalhadas pelo chão.
Pela quarta vez, Danae bateu na porta da
biblioteca com impaciência.
Como não recebeu resposta, deu um passo
para trás, apoiou as mãos na cintura e blasfemou:
— Onde está a porcaria desse homem?
— Entre, Danae, estou aqui — Sion
murmurou do outro lado da porta.
Irritada, Danae contraiu os lábios. Devia
ser outro jogo dele. Talvez uma vingança pelo episódio do talco. Com o queixo
erguido, abriu a porta e entrou.
— Danae, quando eu peço sua presença na
porcaria da minha biblioteca, eu não espero que você fique parada na porcaria
do corredor, batendo na porcaria da porta.
Ela não pôde deixar de rir ao sentar-se.
— O que está fazendo? — perguntou ao ver
pilhas de jornais velhos sobre a escrivaninha.
Sem responder, o marquês pegou um jornal
amarelado pelo tempo e rasgado.
— Ouça isso. Este jornal é de 18 de março
de 1882.
Quando Sion acabou de ler o artigo, que falava sobre os direitos
da mulher, olhou para Danae com atenção e
sorriu.
— Você será uma viúva muito rica, condessa.
— Acha isso possível?
— O parlamento diz que é. — Sion apontou
para o jornal. — Teremos que fazer um testamento. Você mesma me informou que
sua mãe lhe deixou todas as suas propriedades e seu dinheiro. Essas
propriedades foram adquiridas antes do seu... — ele hesitou. — Antes do
casamento de Katherine com
Halsingham. Portanto,
por lei, esses bens não estão incluídos nos bens adquiridos depois do casamento. Para ser mais claro, Halsingham não tem direito de reivindicar nada de
Katherine. Por sua vez, Katherine pode
deixar seus bens para quem desejar. E seu último desejo antes de morrer foi
doar tudo a Danae Suriano, a contessa di Sala, em
gratidão por sua ajuda e atenção, durante seus longos e dolorosos meses de
doença. Foi muito inteligente de sua parte não ter assinado nenhum documento em
relação a suas propriedades.
— Jassy
não permitiu que eu assinasse nada.
— Ela foi uma verdadeira amiga.
Danae suspirou. Se isso fosse possível,
ficaria rica e independente, e Halsingham não teria nenhum direito sobre seus
bens. Sorriu, satisfeita. Como a justiça podia ser poética!
— E então? — Sion perguntou.
— Você não conhece a ambição de
Halsingham. Ele contestará o testamento e não se importará com o escândalo.
Livrar-se de Camden é sua prioridade. E a última coisa que eu quero é notoriedade.
Ele lutará, e nenhum de nós dois gostaria de um litígio no tribunal. E se Danae
for investigada? — Ela jogou o jornal de volta à escrivaninha.
—
Não posso me arriscar, Sion. As jóias de mamãe serão suficientes. A ambição
poderá me levar à perdição.
— Esta é apenas uma emenda a uma lei já
existente. Deve ter suas falhas, mas geralmente é eficiente. Entretanto, se
Halsingham nos causar problemas, contamos com um trunfo poderoso.
— Que trunfo?
— Meu Deus, como você é inocente!
— Do que está falando?
— Você é virgem.
— Sim, sou. Mas e daí?
— Querida, eu pensei que você fosse um
pouco mais inteligente.
— Não me insulte — ela declarou, pondo-se
de pé.
— Então raciocine! — Sion também se
levantou.
— O caso é que não sei aonde você quer
chegar!
— Minha cara, tecnicamente você não está
casada.
— Disso eu sei.
Sion ficou olhando para a jovem
intensamente.
— Entendi. — Danae ergueu as mãos. — Não
vou mais interrompê-lo.
— Bem, como eu dizia... O casamento de
Katherine não foi consumado. Se esse fato vier a público, Halsingham ficará
devastado. E Camden certamente o levará à justiça por quebra de contrato.
Portanto, a última coisa que Halsingham desejaria é que Camden soubesse de
tudo.
— Presumo que se refira a chantagem.
— Isso a incomoda?
— Não! Halsingham teme Camden mais do que
Katherine temia. E eu não me importo com ele.
— O casamento não foi consumado. Como
Katherine, você pode ir a Londres e pedir a anulação.
— E enfrentar Camden novamente? Não, de
jeito nenhum. Mas, com a morte de Katherine, como vai provar sua virgindade,
Sion?
— Posso obter um atestado médico.
— Conhece um médico que faria isso?
— Sim.
— Tem consciência de que se envolverá
nessa fraude?
— Sim, é claro. E também tenho
consciência de que sua causa é justa; caso contrário, eu jamais faria isso. —
Sion abriu uma gaveta, e dela tirou uma caneta e uma folha de papel. — Oh, mais uma coisa: como vai exigir seus
direitos da Itália, será bom ter alguém que corrobore sua história, para o caso
de Camden ou Halsingham resolver investigar. Tenho um primo no consulado de
Nápoles que, acredito, não se importará em dar a você credenciais, se for
interrogado sobre uma certa cotessa di Sala. Escreverei para ele hoje. Concorda?
— Sim.
— Bem, comecemos então. "Eu,
Katherine Beatrice Camden-Carey, viscondessa Halsingham, venho nesta data...".
Danae a custo conteve as lágrimas, e a
voz de Sion foi ficando longe e fraca na sua mente. Nunca ninguém fizera nada
por ela. Mesmo assim, estava preocupada. Não com sua própria situação, pois
nada tinha a perder, mas com Sion
— Bem... — Sion pôs a caneta no tinteiro e olhou para Danae. —- Você aprova?
— Parece maravilhoso.
— Não ouviu uma só palavra, não é?
— Não.
— É preciso que leia com atenção e assine
no final da folha. — Sion lhe entregou o papel. — Não esqueça de que assinou
isso no seu leito de morte. Sua letra não poderá ser muito firme. Em seguida,
levarei o documento para um magistrado autenticar.
— Isso será difícil?
— Não. Ele me deve favores e não causará
nenhum problema. Danae molhou a caneta no tinteiro.
— É melhor que leia antes de assinar.
— Por quê? Confio em você. E depois, não
tenho escolha. — Ela lhe sorriu. — Você confia em mim? — perguntou, antes de
assinar o documento.
Sion olhou para o brilho que o sol punha
nos cabelos femininos. Realmente a transformação fora enorme. Todos os dias
Danae apresentava uma modificação: a maneira de caminhar, o tom de voz... Com
algumas roupas novas, ficaria perfeita. Teria saudades de Katherine, que o havia transformado em outro homem.
Consciente do silêncio que se fizera na
biblioteca, Sion olhou para Danae, que acabara de assinar o documento e o
olhava com atenção.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Sim. Apenas reminiscências.
— Tory?
— Katherine. Nunca a esquecerei.
— Nem eu — Danae sussurrou, com os olhos
marejados de lágrimas.
Os dois se deram as mãos sobre a mesa.
— Agora, somos apenas nós dois, Danae.
— E a sra. Turlow.
— É verdade. Como pude esquecer?

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