Enquanto você dormia parte 6
Entretanto, por alguma razão
desconhecida, acreditou nele. Não se considerava a pessoa mais adequada para
julgar as pessoas, pois vivia afastada delas. Mas conhecia o que era ambição,
vaidade, egoísmo e crueldade; e não via esses traços em Dereham. O marquês
fora gentil com ela, um atributo que Katherine não conhecia em homem nenhum.
Olhou para Sion. Sua silhueta alta era apenas
uma sombra na noite que caíra.
— Meu nome é Katherine.
O marquês sentou-se ao lado dela e a
fitou demoradamente.
— Farei tudo que estiver ao meu alcance
para ajudá-la. Katherine sorriu e, com timidez, tocou a mão que Sion apoiava
sobre a perna.
— Eu acredito em você.
Katherine e Sion estavam na biblioteca,
sentados diante da lareira, ambos quietos. Ele se abrira, mas ela nada dissera
sobre sua vida.
Finalmente, a jovem quebrou o silêncio.
— Que quadro costumava ficar pendurado
sobre a lareira?
— Um retrato da minha esposa.
— Você não devia ter feito isso.
— Feito o quê?
— Não devia ter tirado o quadro, é claro.
— Isso não é da sua conta!
Katherine se lembrou de um retrato que
ocupava um lugar de honra em sua casa. Mas tudo mudara quando sua mãe morreu
antes de dar a Camden sua herança. Antes mesmo que ela esfriasse na sepultura,
Camden, irado, removeu o quadro da sua querida mãe, atirando-o no sótão. Quando o pai se afastava do Castelo, ela
corria ao sótão. Era
um lenitivo: ali,
conversava com a mãe durante horas.
— Você disse que adorava sua esposa, mas
a expulsou da casa onde viveu com ela. Esconder o quadro não fará sua dor
desaparecer. Se Victoria tem
um lugar no seu coração, tem direito de estar em um lugar de honra na casa.
Katherine examinava o lugar
vazio. Tory devia ter sido uma mulher muito bonita para fazer par
com a beleza de Sion. Aprendera com lorde Camden que apenas as pessoas belas
merecem ser amadas.
— Devia pôr o retrato de volta, pois cada
vez que olha para o lugar vazio, vê o rosto dela. Vê a dor que a maltrata, vê
seu corpo ensangüentado. Para sua própria sanidade, ponha o retrato de volta.
Com o tempo essa visão horrível será erradicada.
Sion afastou-se de Katherine e se
encaminhou para o armário de bebidas.
— O que há de errado com você, afinal?
Faço o que bem entender com o retrato de minha mulher! — Pegou a garrafa de
conhaque e voltou para perto da lareira, depois de encher um copo de cristal.
Após alguns segundos olhando para o copo,
jogou-o no fogo da lareira e soltou uma praga. — Tirei o retrato porque toda
vez que olhava para Tory eu me sentia culpado. Entende essa emoção, Katherine?
Eu a amava, ela ia me abençoar com um filho! E falhei. Eu deveria ter sido
capaz de salvá-la!
— Não pode ser responsabilizado por um
terrível acidente. Contudo, pode ser responsável pelo que o mundo pensa a seu
respeito. Você fugiu: essa é a sua culpa. Por isso não tem paz! Sua penitência
é essa. Se é tão maltratado pelo passado, limpe seu nome e readquira seu
orgulho. Dê a si mesmo o direito de se lembrar das coisas boas que sua esposa
lhe deu. Talvez assim encontre um pouco de paz.
Katherine ficou surpresa com a própria
audácia. Quem era ela para nortear a vida daquele homem? O que havia feito com
a própria vida?
Levantando-se, aproximou-se do marquês.
— Acho que é hora de mudanças, Sion. Para
nós dois. Precisa de alguém que acredite em você novamente. E eu, se pretendo sobreviver
ao mundo, tenho que ter fé. Então, o que faremos a partir de agora? Seremos
amigos ou partiremos como estranhos?
A única certeza de Sion era que queria a
confiança daquela misteriosa mulher.
— O que tenho a perder, Katherine? Sabe
tudo a meu respeito e ainda está aqui. Agradeço por acreditar em mim. Mas, se
espera que eu a ajude, há um preço: tem que responder a algumas perguntas.
— Eu disse que necessito ter fé, e
pretendo ter. Entretanto, estou exausta, e só desejo agora me recompor.
— Covarde — Sion murmurou, sorrindo.
— Boa-noite, lorde Dereham — a moça disse, saindo da biblioteca.
Katherine tinha razão: precisava dar uma
chance a si mesmo. Como aquela jovem podia conhecê-lo tão bem?
Na manhã seguinte, a sra. Turlow entrou
no quarto, excitada.
— Encontramos! — A governanta se afastou
para que um jovem jardineiro passasse
por ela, carregando um grande baú sobre o ombro.
O rapaz estava vergado sob o peso do baú,
ansioso para poder colocá-lo no chão ali mesmo onde se encontrava. Mas a sra.
Turlow pegou o rapaz pela orelha e mostrou a cama.
— Coloque o baú ali, meu jovem, perto da
cama.
O rapaz obedeceu, fez uma reverência com
a cabeça e preparou-se para sair. Katherine o impediu, colocando uma caixa de bombons nas mãos dele.
— Obrigada, Ned. Seu nome é Ned, não é?
— Sim, milady. Obrigado — ele agradeceu, antes de sair.
— Fiz os bombons para a senhora — a governanta declarou,
magoada.
— E estavam deliciosos. Mas é muita
tentação para quem deseja se manter magra. Da próxima vez que quiser me mimar,
pode me oferecer algumas frutas.
— A senhora está magra demais. Precisa de
um pouco de carne sobre esses ossos.
— Bem, vamos ver o que há neste baú. Foi
o único que encontraram?
— Todos os outros ficaram completamente
submersos. Deixe-me abri-lo, milady.
Aberto, o baú mostrou roupas úmidas e
fedorentas. A governanta pegou as roupas, e uma escova de cabelo de cabo de
prata. De repente, deparou com uma superfície dura. Era uma grande caixa de
madeira.
— As jóias da minha mãe! — Katherine exclamou, pegando a caixa das mãos da
sra. Turlow. Ao abri-la, murmurou: — Como conseguiu isso, querida Jassy?
Katherine continuou admirando o tesouro.
Eram presentes que Camden dera a sua mãe nos vários anos de casamento. Uma maneira
de assegurar sua herança.
Ele fora péssimo marido, e a esposa
morrera de hemorragia no aborto espontâneo de uma segunda filha, quando
Katherine tinha apenas três anos de idade.
Agora, sua mãe devia estar sorrindo.
Teria Jassy sempre esperado por essa chance?
Como precisava de Jassy ao seu lado!
Katherine ajoelhou-se na frente da
pequena sepultura de Jassy. Sorriu ao lembrar-se da velha governanta. Que par
as duas formavam!
Ela gorda, sempre escondendo sua dor sob
um rosto impassível. Jassy, magra, vendo sempre o lado positivo da vida. Mesmo
assim, uma consolava a outra nos momentos difíceis.
Consciente do ódio que Camden nutria pela
filha, Jassy protegia Katherine quando o pai não se encontrava presente.
— Oh,
Jassy, que saudade tenho de você! Encontrei outros amigos.
A Sra. Turlow é maravilhosa, você ia gostar de conhecê-la. E lorde Dereham... Bem, acho que posso confiar nele. Mas...
Não são como você. Oh, Jassy,
o que devo fazer?
Uma brisa mais forte fez as folhas voarem
sobre a sepultura, e Katherine pôde ouvir Jassy sussurrar:
Você não precisa mais de mim, querida. Katherine Camden-Carey
não
existe mais. Não vê o que se mostra diante dos seus olhos? Deus lhe deu a
chance de ser a mulher que sempre desejou ser. Finalmente, está livre, minha
querida. Seja forte e saiba que sempre olharei por você. Eu te amo.
Katherine olhou para a cova durante
alguns momentos. Em seguida, fitou as próprias mãos, como se as visse pela
primeira vez.
Não vê o que se mostra diante dos seus olhos? Katherine
Camden-Carey não existe mais.
— Jassy?
Nesse momento, a brisa cessou. Teria sido
um beijo de Jassy? Ou um beijo de despedida de... Katherine?

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