Enquanto vc dormia parte 5
O dia estava bonito, e Katherine andava
pelo jardim, parando de vez em quando para observar as plantas. Próximo às
largas portas francesas, Sion a olhava, irado. Quinze dias haviam se passado
depois que a jovem acordara para a vida, e ela, alegando não se lembrar de
nada, ainda não respondera a nenhuma de suas inúmeras perguntas. Parecia fugir
de alguém, mas como saber ao certo?
O marquês tinha que ganhar sua confiança.
Apesar de sua delicadeza para com a moça, ela não o deixava se aproximar.
Fazia as
refeições no quarto, recusando-se a se juntar a ele na sala de jantar; e toda
vez que tentava acompanhá-la no passeio pelo jardim, a jovem dizia que não se
sentia bem e voltava para o quarto.
Não bastasse isso, a sra. Turlow dava
cobertura à moça. Uma verdadeira conspiração.
Bem, já tolerei demais essa situação. Já basta! Sion ergueu o queixo, e encaminhou-se para o
jardim.
Katherine suspirava, o
rosto exposto ao sol. Nunca notara como o sol era maravilhoso até ser privada
da sua presença. Se pudesse, tiraria toda a roupa e exporia seu corpo àquela
bênção de Deus.
Dia a dia, ela se sentia mais forte e
confiante. E, como uma borboleta saindo do casulo, ansiava para bater suas
asas.
Depois de tantos meses, seus parentes
deviam acreditar que estivesse morta. Não que se importassem com ela; mas tal
conclusão, em vez de deixá-la com raiva ou triste, dava-lhe uma imensa
sensação de alívio.
Katherine ficou tensa ao ouvir passos.
Sabia muito bem quem era.
— Boa-tarde — Sion disse, causando-lhe
calafrios. Virou-se vagarosamente para se confrontar com o lorde. Nunca
esqueceria que aquele homem salvara sua vida, mas temia que a devolvesse a seus
algozes. Voltar à companhia do seu pai seria insuportável. Preferia morrer.
— Lorde Dereham — Katherine respondeu, com educação. — Se
me permite milorde, não me sinto muito bem e acho que devo me retirar para meu
quarto—completou, sem conseguir encará-lo.
Sion cruzou os braços sobre o peito e
fincou os pés no chão, as pernas afastadas.
Não havia como fugir dele.
— Creio que é chegada a hora de termos
uma conversa. — Encaminhou-a a um banco, onde se sentaram. — Em primeiro lugar,
seu nome, por favor.
Katherine hesitou, pesando as
possibilidades antes de falar.
— Conte-me a verdade, se não se importa
minha cara. Não sou estúpido. Sei que não perdeu a memória. — Ele ergueu o
queixo da jovem para que o encarasse. — Eu a
salvei, e cuidei da senhora durante meses. Como investi um considerável tempo
nisso, acha que eu poderia magoá-la? Juro que jamais faria algo que a colocasse
em risco. Confie em mim.
O sol reapareceu atrás de uma nuvem, e o
perfume de rosas chegou até os dois.
Como poderia confiar em um homem? Katherine pensou.
— Sei que salvou minha vida, mas depois de
me esquecer durante muito tempo naquele quarto. Fui um instrumento para acabar
com seu enfado, mas isso não significa que devo confiar no senhor.
— Forçou um sorriso. — Tem minha eterna
gratidão, milorde. É claro que, de algum modo, eu devolverei o dinheiro que
gastou comigo. — Katherine ajeitou os óculos, como sempre fazia quando ficava
nervosa. Suas mãos suavam, e ela tremia.
— Como a senhora é magnânima! — comentou Sion, irônico.
— Mas durante algum tempo o senhor se
esqueceu de mim. Suspirando, ele olhou para o jardim.
— Eu vivia tão embriagado que nem
diferenciava o dia da noite.
— O marquês se levantou, sentindo
necessidade de se distanciar um pouco. E, sem saber exatamente por que, desejou
revelar àquela jovem alguns de seus mais íntimos sentimentos e segredos.
— Há seis anos, apaixonei-me por uma
jovem chamada Victoria Lansing.
Ela era tudo para mim. Tory tinha
um invejável senso de humor, e eu não tinha nenhum. Eu era genioso e orgulhoso, como todos os Dereham. Mesmo assim, um simples sorriso dela
fazia com que todos os problemas parecessem triviais. Casamo-nos, apesar de
todos acharem cedo demais. Não nos importamos, e demos um ultimato a nossos
pais: um casamento rápido ou fugiríamos! — Sion sorriu. — Você pode imaginar a
decisão deles.
— E o que aconteceu? — Katherine
perguntou, depois de algum tempo de silêncio.
— Certa noite, nós discutimos. Eu não
queria seu amigo de infância em nossa casa. e minha esposa não sabia como dizer
isso a ele. Na verdade, Tory não queria fazê-lo. Eu estava cansado de ver
aquele tolo atrás de Victoria o
tempo todo, sussurrando em seus ouvidos como se eu não existisse. Nossa
discussão começou no
quarto, e se estendeu pela casa; Tory
me seguia bem nervosa, argumentando a favor do intruso. Eu fugia dela, furioso, negando-me a
escutar seus argumentos. A neblina estava densa naquela noite. Tudo aconteceu
num segundo: quando dei por mim, Victoria
já havia caído.
Sion fez uma pequena
pausa, e então continuou:
— Ainda podia ouvir os gritos de minha
esposa, e o som do seu corpo rolando a escada. Antes mesmo de chegar até ela e
pegá-la nos braços, eu já sabia que a tinha perdido. Ela estava grávida de sete
meses! Mas Tory abriu os olhos, e eu fiquei exultante. Estava viva, apesar de perder sangue e de
sentir dor. Não pude fazer nada. Mandei os criados chamarem o médico, levei-a
para cima e a deitei na cama. Fiz tudo o que podia, mas de nada adiantou. Ela
gritava de dor e tentava expulsar a criança. Tentei estancar o sangue, mas foi
inútil.
Sion enfiou as mãos nos bolsos. Parecia desolado.
— Antes que o médico chegasse, Tory
morreu em meus braços, gritando e pedindo perdão por ter matado nosso filho.
Minha Victoria pedia
meu perdão! Morreu pedindo perdão! — Sion precisou se esforçar para
prosseguir: — Nem tive a oportunidade de enterrá-la. O amigo dela me acusou de
tê-la matado em um ataque de ciúme. Mentiu horrivelmente! Afirmou que eu
abusava de Tory, e que ela lhe havia confidenciado várias vezes, que temia ser
morta por mim. No início não refutei tais acusações, pois eu sentia que a havia
matado. Depois, quando reagi, já era tarde demais. Muitas pessoas acreditaram
nele, e eu fui acusado. O mundo me acusou. Mesmo as pessoas que eu considerava
amigas, até minha família, acreditavam que eu era culpado de matar brutalmente
a mulher que carregava meu filho!
— Mas você foi inocentado, ou teria
sido...
— Executado? Oh, eles tentaram, mas eu tinha um excelente
advogado. O melhor que o dinheiro podia comprar. O homem acreditava que eu era
culpado de espancar minha mulher até a morte, mas mesmo assim conseguiu me
inocentar.
Katherine tremia. Ali
estava ela, sozinha em um jardim, com um homem cujos amigos e família
acreditavam ser um assassino.
Havia alguma coisa errada com o marquês.
Teria lorde Dereham uma
história de espancamento contra sua esposa? Victoria teria de fato confidenciado ao amigo que
temia por sua vida? Por que o marquês se isolara em vez de se defender?

Nossa quantas indagações!!rsrs. Sei não, mas acho que o Sion foi realmente inocente. Muito bom Anniee, essa fic é ótima!!! Fico feliz que tenha resolvido o problema de sua net. Bjoss amigaa e obrigada por postar!
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